Brasil – Pesquisadores de importantes universidades e instituições americanas avaliaram como crucial o papel da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) para uma “revolução” na agricultura do Brasil nos últimos 50 anos.
Em artigo publicado no mês de novembro passado, no repositório científico Social Science Research Network (SSRN), eles atribuem ao investimento público em pesquisa e desenvolvimento o aumento de 110% na produtividade agrícola nacional, o que, segundo o estudo, torna a instituição uma referência como alavanca para o setor em um país em desenvolvimento.
O artigo é assinado por Ariel Akerman, do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID); Jacob Moscona, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT); Heitor S. Pellegrina, da Universidade de Notre Dame; e Karthik Sastry, do Departamento de Economia da Universidade de Princeton.
Estrutura e geografia
Conforme a publicação, o sucesso do modelo da Embrapa se deve não apenas à escala do investimento, mas principalmente à sua estrutura e seu escopo geográfico. De acordo com os autores, a natureza descentralizada da Embrapa, que conta atualmente com 43 unidades espalhadas por regiões diversas do Brasil, em vez de concentrá-los em uma única sede, explica mais da metade dos ganhos de produtividade.
“Descobrimos que um mecanismo importante para o efeito macroeconômico da Embrapa é o redirecionamento da inovação para as necessidades locais”, escrevem os autores.
Nossos resultados são, até onde sabemos, a primeira evidência empírica direta de como uma mudança política específica, neste caso, um ‘grande impulso’ em pesquisa e desenvolvimento público, pode permitir que um país em desenvolvimento, como o Brasil, escape da ‘armadilha do desajuste tecnológico'” – trecho do estudo
A Embrapa foi crida em 1973, no governo de Emílio Garrastazu Médici, como uma corporação pública de pesquisa com a missão explícita de desenvolver ciência e tecnologia localmente relevantes. O Brasil enfrentava crescentes pressões sobre o setor de produção de alimentos, devido à rápida urbanização e ao crescimento populacional no fim da década de 1960, e dependia, cada vez mais, de oferta estrangeira.
Ciência e tecnologia
Um dos fundadores da Embrapa, Eliseu Alves, identificou que o principal problema era a ausência de ciência capaz de gerar tecnologia adequada ao que o Brasil precisava. O grupo de trabalho encarregado de projetar a instituição estabeleceu três princípios organizacionais para a iniciativa: descentralização, escala de investimento e desenvolvimento de capital humano.
O objetivo central era estudar todas as regiões e ecossistemas do Brasil, em oposição ao modelo que funcionava até então, concentrado em poucas áreas. Com a criação da Embrapa, várias estações do antigo Departamento Nacional de Pesquisa e Experimentação Agropecuária, do Ministério da Agricultura, foram transformadas em Centros Nacionais de Pesquisa ou Unidades de Execução de Pesquisa.
O montante investido nos anos iniciais foi fundamental para o sucesso da Embrapa. Conforme relatório produzido por pesquisadores da instituição ainda em 1988, os recursos aplicados evoluíram de US$ 23,5 milhões em 1974, ano inicial da implantação efetiva, para US$ 190,7 milhões em 1987.
Perfil técnico
Uma proporção significativa desse investimento foi direcionada para instalações físicas, como bibliotecas e equipamentos, e para contratação e treinamento de recursos humanos qualificados. O perfil técnico da empresa passou de 15% de pós-graduados em 1974 para cerca de 85% de pesquisadores com mestrado ou doutorado em 1987.
O artigo publicado no último dia 5 de novembro, intitulado (em tradução livre) “P&D públicos aliados ao desenvolvimento econômico: a Embrapa e a revolução agrícola brasileira”, destaca o custo-benefício do investimento, que teria uma relação média de 17 para 1. Isso significa que para cada R$ 1 investido na Embrapa, R$ 17 retornaram à sociedade em benefícios.
Ainda conforme os autores, os pesquisadores da Embrapa foram capazes de redirecionar o foco da pesquisa para a ciência e tecnologia localmente relevantes, superando o que os acadêmicos chamam de “armadilha do desajuste tecnológico”.
Os trabalhos foram direcionados explicitamente às condições ecológicas particulares do Brasil, como biomas, pragas e patógenos importantes regionalmente. A Embrapa conseguiu superar as restrições de produtividade em regiões mais remotas e com capacidade de pesquisa preexistente limitada.
Utilizando dados em nível de pesquisador, compilados a partir dos currículos de todos os cientistas agrícolas no Brasil, mostramos que a Embrapa redirecionou a pesquisa para as culturas básicas localmente importantes e para as condições ecológicas particulares do Brasil, em parte, ao sustentar pesquisa produtiva mesmo em regiões remotas e com escassez de pesquisa” – trecho do artigo
(Com Gazeta do Povo)