Brasil – A mandioca, raiz que é um alimento tradicional dos brasileiros está “ganhando terreno” no país, com uma produção que deve crescer quase 8% em 2025, mas esse aumento de oferta preocupa os produtores, que têm visto os preços em queda e a rentabilidade reduzida.
A produção de mandioca chegou a 19 milhões de toneladas em 2024, com o Pará na liderança do ranking, seguido por Paraná e Bahia. A cultura atingiu 1,2 milhão de hectares de área colhida no país, gerando um Valor de Produção nacional de R$ 18,1 milhões. Já a produção de fécula tem o Paraná na liderança, com 65,6% do processamento em 2024, seguido pelo Mato Grosso do Sul (21,3%) e São Paulo (9,7%), conforme levantamento do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea).
Perdas
Em Diamante do Norte, no noroeste do Paraná, o produtor André Mataruco cultiva uma área de aproximadamente 200 hectares e lamenta as perdas financeiras com a cultura. “Calculo em torno de R$ 8 mil por hectare de prejuízo nesta safra”, comenta.
Mataruco explica que a rentabilidade para quem produz a raiz envolve a quantidade colhida, o rendimento industrial (amido produzido) e o preço determinado pela demanda do mercado.
A flutuação é muito alta, é muito difícil acertar os três fatores e mesmo a produtividade alta não garante um valor que pague o custo fixo da lavoura” – André Mataruco, produtor
Na área de Mataruco, a produtividade gira em torno de 80 toneladas por hectare, volume bem acima da média estadual de 28 toneladas por hectare. Segundo ele, o resultado é atribuído à tecnologia na propriedade, com foco na agricultura regenerativa. “O sistema de rotação de culturas com a soja e as plantas de cobertura contribuem para melhorar as condições do solo e diminuir a incidência de doenças na plantação”, relata.
Prejuízos
O produtor Rodolfo Luís Gabbiatti, de Planaltina do Paraná, na mesma região, também contabiliza os prejuízos deste ano. “Em torno de R$ 4 mil a R$ 6 mil por hectare”, acredita. Ele lembra que, em tempos de preços mais favoráveis, chegou a receber R$ 2 pela grama de amido. Já neste ano, os preços vêm registrando queda desde janeiro, chegando a receber R$ 0,60 por grama.
Com cerca de 60 hectares de cultivo, também com foco na agricultura sustentável e regenerativa, Gabbiatti faz a rotação de culturas na área com a pecuária e defende maior diálogo com a indústria e a definição de um preço-base para os produtores. “Hoje investimos 100% às cegas”, lamenta.
João Zil Goulart Júnior cultiva mandioca em 290 hectares divididos em duas áreas localizadas em Iporã e Francisco Alves, no Noroeste paranaense. Ele avalia que os preços estão em um patamar suficiente para sanar as contas, mas enfatiza que não há rentabilidade para investimentos maiores.
“A mandioca é uma cultura que está mais tecnificada, porém, com preços baixos fica difícil até custear a produção” – Goulart Júnior, produtor, que
Goulart Júnior observa que a flutuação dos preços vem ocorrendo desde 2023 e que a perspectiva para 2026 é de um cenário ainda pior. Os produtores também relataram perdas causadas por pragas e doenças como a mosca-branca e a broca-das-raízes.
Preços
Dados do Cepea mostram que, entre 8 e 12 de dezembro, a média nominal a prazo da tonelada de mandioca para indústria foi de R$ 515,16 – R$ 0,8959 por grama de amido -, queda de 2,94% em relação ao intervalo anterior e de 8,4% no acumulado das últimas quatro semanas, resultado da demanda enfraquecida neste período do ano.
Conforme o Departamento de Economia Rural (Deral), da Secretaria da Agricultura e Abastecimento do Paraná, a mandioca de dois ciclos tem o custo de produção estimado, atualmente, em R$ 464,70 por tonelada.
Cenário para a cultura
Apesar das dificuldades no campo, a mandioca deve fechar 2025 com um cenário positivo. A produção nacional está estimada em 20,5 milhões de toneladas de raiz, um crescimento de 7,9% em comparação a 2024, conforme dados do Levantamento Sistemático da Produção Agrícola (LSPA) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgados em novembro.
Já a produção de fécula, o amido puro extraído da mandioca, deve ficar entre 740 mil e 742 mil toneladas, segundo o Cepea.
O pesquisador da área de mandioca e derivados do Cepea, Fábio Isaías Felipe, comenta que deve ser registrada leve queda na produção de fécula em relação a 2024, quando o país chegou ao número recorde de 745 mil toneladas. Os dados finais de 2025 devem ser divulgados em meados de março.
A mandioca é uma cultura muito importante para o Brasil, não só pela questão nutricional da população de renda baixa, como também por ser um produto que vai muito além da fécula, com mais de 1.500 aplicações, incluindo o uso como matéria-prima industrial” – Fábio Isaías Felipe, pesquisador do Cepea
Fécula
O setor de massas, biscoitos e panificação absorveu 26,92% da fécula de mandioca produzida em 2024. No entanto, o produto também foi direcionado a frigoríficos (6,51%) e às indústrias de papel e papelão (4,97%) e química e petrolífera (1,28%), mostram dados do Cepea e da Associação Brasileira dos Produtores de Amido (Abam).
Fábio Felipe evidencia ainda a importância da pesquisa e da busca por novos mercados para a evolução da cadeia produtiva da mandioca e os segmentos de produção de fécula, amidos modificados e de farinha. “Ainda há muito o que se avançar em termos de crescimento de produção, sobretudo via produtividade, por meio de variedades mais resistentes, adaptadas, junto à melhoria de processos dentro da porteira”, observa.
Além do crescimento estimado da produção de mandioca em 2025, também estão projetados no Levantamento Sistemático da Produção Agrícola (LSPA) aumentos de 4,9% na área a ser colhida, que pode passar para 1,3 milhão de hectares, e de 2,9% no rendimento médio, que deve chegar a 15,9 mil quilos por hectare.
(Com informações do Globo Rural)