Depois de se tornar um dos principais símbolos da campanha presidencial de 2022, a picanha pode voltar ao centro do debate eleitoral em 2026. Mas, diferente da queda registrada no início do governo atual, a nova alta dos preços não está ligada diretamente à política econômica. O principal fator é a virada do ciclo pecuário, que reduziu a oferta de gado para abate e elevou o preço da carne bovina.
Levantamento exclusivo da consultoria Safras & Mercado para a CNN Agro mostra que o preço da picanha, corrigido pela inflação medida pelo IPCA (Índice de preços ao consumidor), o quilo da picanha no atacado fechou o mês de junho cotado a R$ 72,38. O valor representa um alívio para o bolso na comparação com janeiro de 2026, quando o corte nobre atingiu R$ 77,27 (recuo de 6,3% no acumulado dos primeiros seis meses do ano).
Apesar da queda dentro do ano, a picanha ainda apresentou valorização na comparação anual. Em junho de 2026, o preço ficou 10,8% acima do registrado no mesmo mês de 2025.
Entre os demais cortes avaliados pela Safras & Mercado, a maior redução no semestre ocorreu na alcatra, que passou de R$ 38,63 para R$ 33,41 por quilo, uma queda de 13,5%. O cupim também teve retração significativa, de 9,5%, saindo de R$ 35,03 para R$ 31,71 por quilo.
Outros cortes de maior valor agregado tiveram recuos mais moderados. O contrafilé caiu 2,8% no período, para R$ 38,04 por quilo, enquanto o coxão mole recuou 1,6%, para R$ 33,44 por quilo. O patinho terminou junho em R$ 33,53 por quilo, queda de 1,4%, e o coxão duro registrou baixa de 2,7%, para R$ 32,07 por quilo.
Cortes magros
Na contramão dos cortes de maior valor, o acém apresentou alta de 3,8% entre janeiro e junho, passando de R$ 26,79 para R$ 27,81 por quilo. Segundo o levantamento, o comportamento está relacionado à maior procura por proteínas de menor custo por parte dos consumidores.
No entanto, quando confrontado com o mesmo período do ano anterior, o cenário ainda reflete valorização, já que em junho de 2025, a picanha custava R$ 65,28 (em valores deflacionados), o que consolida uma alta anual de 10,8%.
Conforme os dados levantados, o público brasileiro preferiu cortes mais magros, do dianteiro do animal, ao invés de cortes nobres e tradicionais do churrasco.
Quando Lula prometeu, durante a campanha de 2022, que o brasileiro voltaria a comer picanha, o país vivia um cenário de inflação elevada, renda pressionada pelos efeitos da pandemia de Covid-19 e da guerra na Ucrânia e perda do poder de compra.
Em abril daquele ano, o IPCA acumulava alta de 12,1% em 12 meses, tornando o churrasco um artigo de luxo para muitas famílias.
A redução dos preços, que começou em 2023 e se intensificou em 2024, realmente aconteceu.
Mas especialistas afirmam que ela foi consequência principalmente do ciclo pecuário e não de uma política específica para reduzir o preço da carne.
Quando o boi gordo alcança preços elevados, pecuaristas ampliam os investimentos na produção de bezerros e na retenção de matrizes.
Com o passar dos anos, a oferta desses animais aumenta, os preços da reposição caem e muitos produtores passam a abater mais fêmeas. Esse movimento amplia a disponibilidade de carne bovina no mercado e pressiona as cotações para baixo.
Foi exatamente o que ocorreu entre 2023 e 2024, período marcado por um volume recorde no abate de vacas e novilhas, elevando a oferta de carne no mercado interno e tornando o churrasco mais acessível.
Agora o cenário é o inverso. Com menos matrizes disponíveis, após o forte abate dos anos anteriores, a oferta de animais para frigoríficos diminuiu, impulsionando os preços do boi gordo e da carne bovina.
Mesmo com os reajustes do salário mínimo, o consumidor perdeu capacidade de compra.
Quantos quilos de picanha um salário mínimo compra?
Em junho de 2026, com alta expressiva da picanha atingindo R$ 85,10, corrigidos pelo IPCA, o poder de compra recuou para o menor patamar da série em junho: 19,05 quilos.
Abaixo de 20 quilos pela primeira vez no recorte, mesmo com o salário-mínimo em R$ 1.621.
Em 2025, com o quilo da carne cotado em R$ 70,10 o poder de compra era de 21,65 quilos, com o salário em R$ 1.518.
Em 2024 o piso do mínimo em R$ 1.412, e o preço da picanha em R$ 60,26, elevou a quantidade adquirida para o melhor resultado do período de junho: R$ 23,43 quilos.
Sendo que em 2023, o piso mínimo de R$ 1.320, e o quilo cotado a R$ 63,44, o poder de compra situou-se em 20,81 quilos.
A queda dos preços entre 2023 e 2024 estimulou o consumo interno.
Evolução do consumo interno
Segundo dados do USDA (Departamento de Agricultura dos Estados Unidos), o consumo doméstico de carne bovina no Brasil cresceu 7,8% entre 2022 e 2023 e mais 2% em 2024.
Dados da Conab (Companhia Nacional de Abastecimento) mostram que o consumo atingiu 38 quilos por habitante, o maior nível desde 2014.
(Com informações da CNN Agro)