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Pará entra no mapa do café libérica ancestral e mira nicho de cafés especiais

Pesquisa da Embrapa e da UFRA financiada pela Sudam, confirma café arábica e raro libérica no nordeste do Pará. Próxima fase da pesquisa busca melhorar colheita e pós-colheita para gerar renda a agricultores familiares da microrregião do Guamá

Redação
Última atualização: 19 de outubro de 2026 21:43
Redação
3 dias atrás
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Ao todo, 57 espécimes foram georreferenciados, coletados e submetidos à identificação botânica (Foto: reprodução/getty images).
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Pesquisa conduzida pela Embrapa e pela Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA), com financiamento da Sudam, confirmou a presença de café arábica e da rara espécie libérica em quintais agroflorestais do nordeste do Pará. O achado, exibido neste domingo (18), no Globo Rural, partiu de expedições que georreferenciaram 57 espécimes em cinco municípios da microrregião do Guamá e agora avança para a fase de melhoria de colheita e pós-colheita e a próxima fase da pesquisa busca melhorar colheita e pós-colheita para gerar renda a agricultores familiares da microrregião do Guamá.

Contents
  • O que a pesquisa confirmou
    • Método, financiamento e atores
      • Por que o libérica importa
        • Renda e sustentabilidade de uma cultura ancestral e pioneira
        • Visibilidade histórica que era ainda desconhecida no mundo
        • Comprovações iniciais

O que a pesquisa confirmou

O resultado central está descrito no estudo Taxonomia das espécies de café ancestral no nordeste paraense, publicado na revista científica Agroamazon, da UFRA, em abril de 2026. Os pesquisadores identificaram taxonomicamente a Coffea arabica, conhecida localmente como “moca” e “pretinho”, e o achado mais expressivo, a Coffea liberica, chamada de “beirão” pelos agricultores.

As expedições percorreram oito propriedades distribuídas em cinco municípios, a saber: Irituia, São Domingos do Capim, Ourém, Capitão Poço e São Miguel do Guamá. Ao todo, 57 espécimes foram georreferenciados, coletados e submetidos à identificação botânica. O artigo conclui que os agricultores familiares paraenses são cruciais para a salvaguarda desse patrimônio genético ancestral, com o libérica como protagonista da agrobiodiversidade local.

Método, financiamento e atores

O trabalho integra o projeto Café Ancestral, que abrange ainda o município de Mãe do Rio e investiga a cultura como patrimônio agrícola e cultural em Sistemas Agroflorestais. A Sudam investiu cerca de R$ 120 mil na primeira fase, iniciada em 2024 por meio de um Termo de Execução Descentralizada com a Embrapa Amazônia Oriental.

A autoria do estudo taxonômico é assinada pelo mestrando Rogério Prestes dos Santos (UFRA) ao lado de pesquisadores das duas instituições, entre eles Osvaldo Ryohei Kato e Fernanda Ilkiu-Borges de Souza (Embrapa) e os docentes José Sebastião Romano de Oliveira, Luiz Augusto Silva de Sousa e Breno Pinto Rayol (UFRA). O próximo passo, conforme o anúncio da Sudam, é melhorar os sistemas de colheita e pós-colheita em parceria com agricultores familiares, para que o grão gere renda nas famílias de Irituia.

Por que o libérica importa

O libérica é nativo da África Ocidental, e sua história remonta a mais de 300 anos. Trata-se da terceira espécie de café mais cultivada no mundo, embora com participação minoritária na produção global, conforme estimativas setoriais. No Brasil, sua presença é considerada rara no contexto histórico da cafeicultura nacional.

O quadro comparativo abaixo sintetiza as diferenças entre as espécies envolvidas no achado.

Na microrregião do Guamá, os quintais que abrigam essas plantas fazem parte de um cultivo passado de geração em geração há cerca de 300 anos, segundo o próprio projeto, contribuindo historicamente para a segurança alimentar e para a economia de inúmeras famílias. Essa continuidade, preservada fora dos ciclos produtivos convencionais, explica o valor científico do material encontrado.

Renda e sustentabilidade de uma cultura ancestral e pioneira

O achado ganha relevância em um país que é o maior produtor mundial de café e que colheu, em 2025, safra estimada em 55,2 milhões de sacas de 60 kg, segundo a Embrapa Café. A produção nacional concentra-se em arábica e canephora, de modo que a presença cultivada de libérica em sistemas agroflorestais paraenses representa uma reserva genética fora dos padrões do agronegócio convencional.

Do lado institucional, a Sudam utiliza os Termos de Execução Descentralizada como instrumento de fomento à pesquisa aplicada na Amazônia Legal, e a agenda de bioeconomia ganhou projeção com a realização da COP30 em Belém, em novembro de 2025. Nesse cenário, a valorização de cadeias da sociobiodiversidade alinhadas à agricultura familiar encontra janela política favorável, ainda que dependa de continuidade orçamentária.

Visibilidade histórica que era ainda desconhecida no mundo

A exibição nacional no Globo Rural tende a ampliar a visibilidade do produto e dos municípios envolvidos, o que pode estimular interesse de compradores de cafés especiais, ações de turismo rural e iniciativas de certificação de origem. A percepção de que o Pará abriga um café “ancestral” também reforça narrativas regionais sobre identidade e patrimônio cultural.

Convém, contudo, evitar leituras precipitadas. O alcance do estudo é inicial, com oito propriedades e 57 espécimes, e a viabilidade econômica ainda não está demonstrada, pois dependerá da fase de melhoria de colheita e pós-colheita agora iniciada. Não há, até o momento, evidência pública de expansão de área, investimentos privados confirmados ou estabelecimento de uma cadeia comercial estruturada em torno do libérica paraense.

Comprovações iniciais

São fatos comprovados pelas fontes a identificação taxonômica das duas espécies, a coleta de 57 espécimes em cinco municípios, a publicação do estudo em abril de 2026, o investimento de cerca de R$ 120 mil da Sudam na primeira fase iniciada em 2024 e a exibição da reportagem no Globo Rural neste domingo (18).

O valor imediato do achado é científico e simbólico, antes que comercial, e de que o papel dos agricultores como guardiões do material genético é o elemento central da sustentabilidade do projeto. São cenários possíveis a valorização do libérica em nichos de cafés especiais com renda para as famílias do Guamá, a continuidade do material como patrimônio conservado caso a fase 2 não alcance viabilidade, ou uma expansão gradual sustentada por novos investimentos e eventual denominação de origem.

A confirmação da presença de café arábica e libérica no nordeste do Pará posiciona a região como detentora de um patrimônio genético atípico dentro da cafeicultura brasileira, sustentado durante quase três séculos pela agricultura familiar em sistemas agroflorestais.

O desafio seguinte é converter essa raridade biológica em renda territorial sem romper os arranjos tradicionais que a preservaram. A resposta dependerá dos resultados da segunda fase da pesquisa e da capacidade da Sudam, da Embrapa e da UFRA de transformarem visibilidade midiática em política pública duradoura.

(Com informações do Ver-o-Fato)

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