João Vermelho é um velho conhecido dos grandes fazendeiros e pequenos pecuaristas da Amazônia Legal. Ao mesmo tempo em que é um amigo que limpa seus pastos, também é um inimigo que destrói suas terras e florestas, ameaçando o futuro de seus negócios e o da maior floresta tropical do planeta.
“João Vermelho” é como é conhecido no jargão local. Fora dele, é chamado de “fogo”. A prática está tão enraizada no modelo econômico da agropecuária na região que para muitos é difícil desistir, como constatou a AFP ao visitar o município paraense de São Félix do Xingu, terra de boiadeiros no norte do país.
Em 2024, as chamas queimaram quase 18 milhões de hectares da Amazônia Legal, alimentadas por uma seca sem precedentes ligada à mudança climática. Isso fez com que o desmatamento, que o governo Lula (PT) prometeu erradicar até 2030, crescesse 4% nos 12 meses até julho, revertendo a queda de 30% do ano anterior.
Pela primeira vez, o fogo atingiu mais a floresta tropical do que os pastos. No entanto, a maioria das queimadas começou em fazendas de gado e se espalhou pela vegetação seca.

Os pecuaristas de São Félix sentiram na própria pele: o município registrou o maior número de focos de incêndio no Brasil, mais de 7 mil. “O fogo é uma forma barata de fazer manutenção em um pasto. A mão de obra é cara, veneno é caro. Drone, avião pra jogar veneno é caro, não tem financiamento do poder público”, explica, sob a sombra de seu chapéu de pano, o pecuarista Antonio Carlos Batista, dono de um rebanho de 900 cabeças.
Na estação seca, basta dispor de gasolina e fósforo. Quando vão atear o fogo, as pessoas costumam dizer: “Vou usar o trabalhador João Vermelho!”, conta Batista, de 62 anos.
Hoje, na Amazônia, “o grande desafio é o desmatamento por incêndio”, disse a ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, à AFP. Para reverter a tendência, diversos interlocutores na Amazônia e em Brasília explicam que são necessários mais bombeiros, mais sanções e, acima de tudo, uma mudança de cultura.
Terra de boiadeiros
São Félix do Xingu está localizado no Pará, onde o presidente Lula sediará a COP30 da ONU em Belém, em novembro, a primeira a ser realizada na Amazônia. Quase do tamanho de Portugal e com apenas 65 mil habitantes, o município possui o maior rebanho bovino do Brasil, com 2,5 milhões de cabeças, em parte destinadas à exportação.
Também é responsável pela maior quantidade de emissões de CO2 devido ao desmatamento. Em 2019, foi protagonista no “Dia do Fogo”, quando fazendeiros atearam fogo deliberadamente para apoiar as políticas céticas em relação ao clima do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), desencadeando uma onda de incêndios e indignação internacional.
São Félix é uma terra de boiadeiros e fazendas, com vastas extensões de terra desmatada que podem ser percorridas por quilômetros em estradas empoeiradas. As principais propriedades têm suas sedes em cidades distantes, como São Paulo. Muitas são discretas, com apenas uma cerca de madeira, às vezes sem placa que as identifique.
É o caso da fazenda Bom Jardim, com 12 mil cabeças de gado. Recostado em uma cadeira, com um chapéu preto e uma grande fivela prateada no cinto, Gleyson Carvalho, o capataz da fazenda, admite que usar fogo por ali está cada vez mais perigoso. (Com informações do UOL)