No 1º semestre de 2026, o Pará exportou 115,2 mil toneladas de carne bovina, com receita de US$ 655,6 milhões. No mesmo período de 2025, haviam sido exportadas 105,1 mil toneladas, que renderam US$ 502,7 milhões. Na comparação entre os dois períodos, houve crescimento de 9,7% em volume e de 30,4% em valor, refletindo tanto o aumento dos embarques quanto a valorização do preço médio da carne bovina exportada. Os dados são da Abiec (Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes) enviados com exclusividade ao Grupo Liberal.
Com esse resultado, o estado manteve sua posição entre os principais exportadores brasileiros de carne bovina, ocupando a 7ª colocação no ranking nacional, com participação de aproximadamente 6,9% do volume e 6,7% do valor das exportações brasileiras no período.
Governo federal também indica crescimento da exportação de carne do estado
Já segundo o Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (MDIC), Pará registrou um crescimento de 32,2% nas exportações de carne bovina no primeiro semestre de 2026 e acompanhou o momento histórico vivido pelo setor no país. Enquanto o Brasil alcançou recorde nas vendas externas, com receita de US$ 9,93 bilhões e avanço de 7,3% no volume embarcado em relação ao mesmo período do ano passado, o estado exportou US$ 637,5 milhões em carnes bovinas frescas, refrigeradas e congeladas, um acréscimo de US$ 155,3 milhões frente ao primeiro semestre de 2025. Os dados são do Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (MDIC).
Conforme o MDIC, apenas em junho deste ano, o Pará exportou US$ 125,8 milhões em carne bovina, refrigerada ou congelada – um aumento de 25,70% em comparação ao mesmo período do ano passado. Em junho de 2026, o estado exportou US$ 25,7 milhões a mais que em junho de 2025.
O desempenho consolidou a carne bovina como o quarto principal produto da pauta exportadora paraense, respondendo por 4,9% das exportações estaduais, atrás apenas dos minérios de ferro, cobre e da soja. O resultado foi impulsionado principalmente pela forte demanda da China, principal destino da proteína produzida no estado, mas especialistas e representantes do setor avaliam que a elevada concentração das vendas no mercado chinês também representa um desafio para os próximos meses.
Produção em alta e ganhos para a cadeia
Na avaliação do diretor técnico da Federação da Agricultura e Pecuária do Pará (Faepa), Guilherme Minssen, o avanço das exportações confirma a competitividade da pecuária paraense.
O Pará aumentou as exportações de carne no primeiro semestre de 2026 e continua produzindo carne de excelente qualidade e nos menores preços de mercado”, afirma.
Segundo ele, toda a cadeia produtiva foi beneficiada pelo aumento das vendas externas, desde os pecuaristas até os frigoríficos. Entre as empresas que lideraram as exportações no estado estão Fortefrigo, Frigorífico Rio Maria, Mafrinorte e Frigorífico Mercúrio.
Minssen destaca ainda que a China permanece como principal compradora da carne paraense e admite preocupação com uma eventual interrupção temporária das compras chinesas após o esgotamento das cotas de importação.
Pode afetar muito o setor nos próximos meses. Porém, eles não têm outra alternativa melhor e mais viável do que a carne brasileira”, avalia.
Dependência da China preocupa a indústria
Se por um lado o mercado chinês impulsionou o crescimento das exportações, por outro aumentou a dependência do setor frigorífico paraense. Segundo o presidente do Sindicato da Indústria de Carnes e Derivados do Estado do Pará (Sindicarne-PA), Daniel Acatauassu Freire, cerca de 77% das exportações de carne do estado têm como destino a China, percentual muito superior à média nacional, de 47%.
“O Pará é muito dependente da China ainda. O estado não tem acesso aos mercados norte-americano, europeu, mexicano nem chileno”, explica.
Segundo ele, o setor trabalha em conjunto com o Ministério da Agricultura para obter habilitação sanitária e ampliar o acesso a novos mercados internacionais.
“Estamos trabalhando para tentar habilitar o estado juntamente com o Ministério da Agricultura para esses países que hoje não temos acesso.”
Fim das cotas provocou redução dos abates
Apesar do crescimento nas exportações, Freire afirma que o cenário mudou após o esgotamento antecipado das cotas chinesas de importação.
“Esse crescimento aconteceu porque as indústrias brasileiras passaram a produzir muito para ocupar a cota da China e no Pará não foi diferente”, disse.
Segundo o dirigente, a estratégia acabou gerando excesso de produção em um curto período. “Acabamos tendo que produzir muito, tanto que a cota acabou em junho. Não foi uma boa estratégia do Brasil acabar tão rápido”, explicou.
Como consequência, diversas indústrias reduziram o ritmo de produção.
“Várias indústrias fecharam, deram férias coletivas e houve muitas demissões na indústria formal da carne paraense porque nem o Pará nem o Brasil conseguem assimilar esse excesso de produção, principalmente de cortes que a China compra muito”, destacou.
Exportações fortalecem economia, mas podem pressionar preços
Para o economista Genardo Oliveira, o crescimento das exportações gera reflexos positivos para a economia estadual, especialmente na arrecadação e na geração de empregos.
“Com mais vendas externas, há maior entrada de divisas e recolhimento de impostos ligados à produção e exportação. Isso fortalece o caixa público e pode ampliar investimentos em infraestrutura e serviços”, disse. Ele ressalta que toda a cadeia produtiva é beneficiada.
“A expansão da demanda internacional estimula frigoríficos, transportadoras e produtores rurais, criando postos de trabalho diretos e indiretos. Também movimenta atividades complementares como logística, armazenagem, medicamentos veterinários e produção de rações”, declarou.
Por outro lado, o economista explica que o aumento das exportações pode reduzir a oferta de carne no mercado interno caso a produção não acompanhe o crescimento da demanda internacional.
“Se a produção cresce junto com as exportações, o impacto é menor. Caso contrário, frigoríficos tendem a priorizar mercados externos mais rentáveis, o que pode pressionar os preços para os consumidores”, disse.
Essa preocupação também é compartilhada pelo Sindicarne (Sindicato da Carne e Derivados do Estado do Pará). Segundo Daniel Freire, a redução dos abates após o encerramento das cotas chinesas diminuiu a oferta de cortes nobres no mercado brasileiro.
“Cortes como picanha, filé, alcatra e coxão mole ficaram mais escassos porque houve uma diminuição muito grande nos abates do estado e do Brasil”, declarou.
Novos mercados e ciclo pecuário entram no radar do setor
Além da preocupação com a concentração das exportações na China, representantes da cadeia produtiva afirmam que a abertura de novos mercados internacionais é uma prioridade para reduzir a vulnerabilidade do setor diante de oscilações na demanda do país asiático.
O presidente da União Nacional da Indústria da Carne e coordenador da Aliança Paraense pela Carne, Francisco Victer, afirma que a diversificação dos destinos da carne paraense já faz parte da estratégia da indústria frigorífica.
“A manutenção dos bons mercados que já atendemos e a busca por novos mercados são trabalhos constantes da indústria da carne paraense”, afirmou.
Segundo ele, o setor está próximo de conquistar uma importante abertura comercial.
Estamos muito próximos de conseguir a inclusão do Pará na lista dos estados brasileiros cujas indústrias podem solicitar habilitação para exportar carne bovina in natura para os Estados Unidos da América. Também temos cobrado do Ministério da Agricultura e Pecuária as providências que nos permitam voltar a exportar para o Canadá e começar a fornecer nossa carne para o Chile e o México”, revelou.
Victer acrescenta que outros mercados estratégicos também estão sendo negociados.
“Não menos importantes são a União Europeia e a Rússia, que têm nos ocupado com tratativas, a exemplo da recente viagem de uma comitiva paraense, liderada pela Fiepa, que foi recebida no Parlamento Alemão”, declarou.
Apesar das preocupações em torno das cotas chinesas, ele avalia que não deve ocorrer uma paralisação prolongada das compras.
“Não acreditamos numa interrupção temporária das compras chinesas. Prevemos uma queda nas partidas entre julho e agosto para adaptação às novas condições e uma forte retomada a partir de setembro”, disse.
O presidente da Associação Rural da Pecuária do Pará (ARPP), Fernando Lobato, destaca que o atual cenário do mercado internacional é influenciado tanto pela geopolítica quanto pelo ciclo pecuário vivido pelos principais países produtores.
O mercado é geopolítica e estoques nos principais players mundiais. O Brasil está no ciclo pecuário de alta para abate de fêmeas, que diminuíram o estoque devido ao baixo preço de mercado. Hoje temos o menor preço do mundo, cerca de US$ 60 por arroba”, explicou.
Segundo ele, o cenário também é observado em importantes concorrentes brasileiros.
“Os quatro maiores players passam pelo mesmo momento, com Estados Unidos e Austrália, sobretudo, apresentando estoques de rebanho nas mínimas históricas”, declarou.
Lobato lembra que os produtores enfrentaram anos de baixa rentabilidade e que o setor começa agora um novo ciclo de recuperação.
“O pecuarista vem amargando anos desafiadores e só agora inicia a safra de alta tão esperada, o que permitirá o retorno aos estoques máximos nos próximos anos, dentro desse ciclo repetitivo da pecuária”, disse.
Sobre a situação do mercado chinês, ele observa que o encerramento da cota e a incidência de tarifas tornam o segundo semestre mais desafiador.
A China aplicou uma cota e taxação de 55%, que o Brasil acabou de atingir, mostrando um segundo semestre novamente desafiador, com tendência de baixa, pois nosso maior cliente praticamente inviabilizou parte das operações”, avaliou.
Na avaliação do dirigente, o mercado interno e a abertura de novos destinos serão fundamentais para equilibrar o setor nos próximos meses.
(Com informações de O Liberal)