A China está cada vez mais rigorosa no controle de resíduos de agrotóxicos e medicamentos veterinários em produtos agropecuários importados. Com a recorrência de notificações e bloqueios de cargas de diversos fornecedores no mundo, o adido agrícola do Brasil em Pequim enviou um alerta ao Ministério da Agricultura brasileiro neste mês solicitando mais rigor no monitoramento antes do embarque. O intuito é limitar o risco às exportações ao principal cliente do Brasil em diversos segmentos, como soja e carne bovina.
Nesse ambiente, uma única detecção de substância proibida ou de resíduo acima do LMR [limite máximo de resíduos] chinês pode resultar em devolução ou destruição do lote e em suspensão da habilitação”, diz o documento assinado pelo adido Leandro Diamantino Feijó, ao qual o Valor teve acesso.
Ele sugere que insumos proibidos na China sejam excluídos da cadeia produtiva do Brasil. Segundo fontes do setor, essa possibilidade está descartada por ora. Uma pessoa a par do tema diz que o alerta do adido não foi enviado para criar pânico, mas para melhorar o monitoramento.
As informações estão em um documento datado de outubro, mas com referência a atualizações da Lista de Medicamentos Veterinários Proibidos e de Uso Descontinuado e da Lista de Agrotóxicos Proibidos e de Uso Restrito, feita pelo Ministério da Agricultura e Assuntos Rurais chinês, em agosto.
Segundo duas fontes, representantes do setor agropecuário já debateram o tema com o Ministério da Agricultura.
Uma das medidas sugeridas pelo adido é que as informações sejam repassadas às áreas responsáveis pelo controle sanitário no Ministério da Agricultura e às entidades de exportadores.
Ele propõe “excluir da cadeia as substâncias proibidas na China e cumprir a dosagem e o período de carência dos medicamentos veterinários para atender aos LMRs chineses”.
Há ainda a recomendação para que os exportadores de produtos de origem vegetal verifiquem os limites máximos de resíduos e as proibições ou restrições da lista, considerando eventuais diferenças entre os insumos autorizados no Brasil e os vedados pela China.
Isso porque, segundo Feijó, o reforço nas medidas chinesas de controle levou à elevação de recusas de alimentos importados pela Administração Geral de Aduanas da China (GACC, na sigla em inglês) devido aos resíduos, do Brasil e de outros fornecedores.
Não houve detecções entre 2020 e 2023. Foram 22 lotes em 2024, concentrados em quatro declarações de três estabelecimentos, 13 em 2025 e 5 no primeiro semestre de 2026, quase todos de produtos de origem animal. Cerca de dois terços das detecções decorreram de extrapolação de LMR de substâncias de uso autorizado, sobretudo o fluazuron em carne bovina (24 lotes)”, diz o adido, sobre a recusa de cargas brasileiras.
Problemas na soja
A questão não se restringe à cadeia de carnes. Em novembro de 2025 a China cancelou a importação de uma carga de 69 mil toneladas de soja do Brasil e suspendeu as compras de soja de cinco unidades, de quatro empresas diferentes, após uma suposta contaminação por 10 toneladas de trigo tratado com agrotóxicos. O Brasil não tem autorização para exportar trigo à China, e os agrotóxicos usados são proibidos no país asiático.
Procurados pelo Valor, o Ministério da Agricultura e o adido agrícola do Brasil na China não responderam a pedidos de comentários. A embaixada chinesa no Brasil não retornou. O Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Saúde Animal (Sindan) não se pronunciou. A Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) preferiu não comentar, pois não foi comunicada oficialmente sobre o assunto. (Colaborou Rafael Walendorff, de Brasília).
(Com informações do Globo Rural)