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Agronegócio

Belo Monte vai usar IA para monitorar peixes

Redação
Última atualização: 7 de julho de 2026 20:49
Redação
2 dias atrás
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Belo Monte já registrou a passagem de mais de 4,3 milhões de peixes de 168 espécies diferentes (Foto: reprodução/Globo Rural).
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Um dos empreendimentos de infraestrutura mais polêmicos da história recente do Brasil, o Complexo Hidrelétrico Belo Monte, no Pará, usará inteligência artificial no monitoramento de peixes a partir de abril de 2027. Cientistas e técnicos ligados ao Instituto Atlântico estão treinando um algoritmo para contar e identificar em tempo real cada espécie que passa pelo Sistema de Transposição de Peixes (STP), mais conhecido como “escada de peixes”.

Atualmente, uma câmera filma durante 24 horas a janela de observação, localizada abaixo do nível da superfície do rio Xingu por onde passam milhões de peixes em migração. A identificação de cada espécie, feita por amostragem, depende dos olhos humanos treinados de uma equipe de seis pessoas.

Bruno Bahiana, superintendente socioambiental e do componente indígena da Norte Energia, concessionária que opera a Belo Monte, diz que a equipe técnica assiste aos vídeos gravados e faz a contagem frame a frame. Esse processo, em operação desde 2016 na Usina Hidrelétrica Pimental, do Complexo Belo Monte, já registrou a passagem de mais de 4,3 milhões de peixes de 168 espécies diferentes.

A automatização com a IA deve focar em espécies migratórias, como curimatás, jaraquis e pirararas, e também as espécies amazônicas de importância para a pesca local, como pacus e tucunarés. Segundo Bahiana, o monitoramento dos peixes (uma das obrigações das usinas para minimizar impactos causados com a interferência das represas hidrelétricas nos rios) já gera adaptações adicionais na rotina da operação da usina, como a implantação de grades anticardumes e operações especiais durante períodos de El Niño.

A classificação taxonômica (espécie, família e ordem) e o rastreamento dos peixes devem gerar dados considerados confiáveis para os relatórios ambientais exigidos por órgãos reguladores como o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). Com a maturidade técnica do projeto, espera-se uma precisão média de identificação de peixes superior a 90%.

Polycarpo Souza Neto, cientista de dados do Instituto Atlântico, diz que a visão computacional também permitirá avaliar a turbidez da água e a vazão dia e noite. O banco de dados da Belo Monte está sendo avaliado por cientistas de biologia marinha e especialistas em biomas envolvidos no projeto, que transferem o conhecimento acumulado para o modelo computacional que está sendo desenvolvido.

Muitas espécies amazônicas têm uma similaridade grande. Para identificar exatamente qual é o peixe tem que ser especialista na área”, diz Souza Neto, acrescentando que o projeto vai gerar conhecimento e artigos científicos.

Tommaso Giarrizzo, doutor em biologia marinha pela Universidade de Bremen (Alemanha) e professor da Universidade Federal do Ceará (UFC), afirma, em nota, que o sistema vai ajudar a trazer luz a importantes questões. Segundo ele, estudantes de mestrado e doutorado da UFC e de outras universidades federais, como a Universidade Federal do Pará, foram escalados para se envolver no projeto e desenvolver teses focadas tanto na criação dos modelos quanto na aplicação da IA para responder questões ecológicas fundamentais. Entre eles, os fatores que determinam a passagem das espécies pelo Sistema e a promoção da conectividade fluvial.

Tecnologias para ampliar a inteligência e a automação nas práticas de conservação ambiental são aplicadas em outros países, como Estados Unidos, Canadá, Suécia e Noruega. O Yolo (sigla em inglês para You Only Look Once, ou você só olha uma vez), algoritmo que está sendo treinado para o monitoramento, já é usado, por exemplo, para vigiar o salmão nos EUA e na Noruega. A diferença é que nos EUA a tecnologia trabalha com 15 espécies e em Belo Monte deve chegar a 60, com possibilidade de ampliação rápida para 78.

Segundo Lucélia Saraiva, gerente do projeto, o monitoramento por visão computacional faz parte de uma plataforma tecnológica desenvolvida pelo instituto para integrar todos os dados dos 49 programas socioambientais da Belo Monte, incluindo os impactos sobre os pescadores atingidos pela barragem.

Chamado de Idarsa (Inteligência de Dados para Automação de Relatórios Socioambientais), o sistema atende ao Programa de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação da Norte Energia, regulado pela Aneel, com apoio da Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii), com investimento total da ordem de R$ 7 milhões.

De acordo com Souza Neto, do Instituto Atlântico, a tecnologia de monitoramento de peixes por IA, inédita no país, poderá ser aplicada em qualquer outra barragem que tenha peixes, customizando o software para a realidade de cada usina, incluindo o treinamento do algoritmo para novas espécies regionais.

Desde sua concepção o Complexo de Belo Monte é alvo de críticas de ambientalistas e representantes de povos originários, devido aos impactos socioambientais associados ao empreendimento. Entre as principais preocupações estão os efeitos sobre comunidades indígenas e ribeirinhas e sobre a fauna aquática da bacia do rio Xingu. Segundo ambientalistas e cientistas, a instalação da usina alterou o regime de vazão do rio, o que resultou em mudanças na reprodução de peixes, além de alterar a migração e alimentação para diversas espécies.

(Com informações do Globo Rural)

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