A exportação de pescado no Pará enfrenta desafios estruturais focados na alta concentração de compradores externos e no baixo nível de processamento industrial do produto. A avaliação é de representantes do setor produtivo e do Centro Internacional de Negócios (CIN) da Federação das Indústrias do Estado do Pará (Fiepa). Mesmo com a recente realização da auditoria técnica da União Europeia (UE) no Brasil, finalizada no último dia 18, entidades locais apontam que o impacto de uma eventual reabertura do bloco europeu será pequeno e de curto prazo no mercado paraense.
Os dados comerciais consolidados do início do ano indicam uma forte dependência de poucos destinos e a liderança absoluta da venda de matéria-prima bruta. De acordo com analistas econômicos, a configuração atual da balança exige cautela por causa de riscos cambiais e geopolíticos que repercutem no Produto Interno Bruto (PIB) do estado.
Saiba quais países são os principais compradores do peixe do Pará
Dados do Monitora COMEX de Peixes Paraenses, elaborado pelo CIN da Fiepa para o primeiro trimestre de 2026 (janeiro a março), revelam que os Estados Unidos e Hong Kong concentraram 80,45% do valor total exportado de pescado do Pará. O mercado norte-americano lidera a pauta isoladamente, respondendo por 43,25% do faturamento. Hong Kong aparece na segunda posição com 37,20%, enquanto a China surge na sequência com 8,57% de participação.
Juntos, os mercados dos Estados Unidos e da China somaram um volume financeiro de US$ 8,28 milhões no primeiro trimestre, com o embarque de 1.365,8 toneladas de pescado paraense.
Segundo a gerente do CIN/Fiepa, Cassandra Lobato, em posicionamento divulgado no dia 24 de junho, essa estrutura restrita gera sensibilidade econômica direta.
“O alerta associado a esse tipo de estrutura decorre da dependência de geração de receita externa em um número restrito de parceiros. Quando grande parte das exportações está direcionada a poucos destinos, qualquer variação no valor negociado com esses mercados se transmite diretamente para o resultado total exportado”, explicou a gerente.
Veja o perfil dos produtos que o estado envia para o exterior
A análise técnica da Fiepa aponta que mais de 90% do faturamento da exportação de pescado paraense provém de mercadorias com processamento limitado ou comercializadas inteiras. O pargo inteiro congelado lidera as vendas com US$ 6,2 milhões (cerca de R$ 32,4 milhões), registrando uma fatia de 39% do total exportado. Em seguida aparecem os subprodutos, como cabeças, caudas e bexigas natatórias, que geraram US$ 5,8 milhões (cerca de R$ 30,2 milhões), equivalentes a 36,4%, acompanhados por outros peixes congelados, com US$ 2,3 milhões (aproximadamente R$ 12,2 milhões), representando 14,6% das exportações.
Em contrapartida, os itens que passam por maior grau de beneficiamento industrial possuem presença residual na balança comercial do Pará. Os filés congelados em geral correspondem a apenas 0,68% do faturamento do trimestre, e o filé de pargo participa com somente 0,62%. Cassandra Lobato reforça que a estrutura evidencia uma pauta concentrada em itens de menor agregação de valor industrial, indicando que o Pará segue exportando peixes em estado mais próximo ao natural ou com baixo nível de transformação.
Entenda por que a reabertura da Europa trará pouco impacto inicial ao Pará
A missão técnica da União Europeia, que vistoriou sistemas de controle nacionais entre 8 e 19 de junho de 2026 com o objetivo de avaliar a retomada das importações suspensas desde 2018, deve apresentar poucos reflexos práticos imediatos no Pará. Conforme explicou Eloy de Sousa Araújo, diretor técnico da Associação dos Produtores de Pescados da Amazônia Azul (ABRAPPAA), em entrevista no dia 11 de junho, as espécies visadas pelo bloco europeu são atum, lagosta e tilápia, e nenhuma embarcação paraense foi vistoriada pelos auditores.
O estado também esbarra em um severo gargalo histórico de regularização de sua frota. A estimativa da ABRAPPAA indica que o Pará possui cerca de 12.000 embarcações pesqueiras, mas apenas 2.007 constam no cadastro oficial do Ministério da Pesca e Aquicultura (MPA), deixando quase 10.000 barcos sem registro.
(Com informações de O Liberal)