A recente disparada dos preço do petróleo em meio à guerra no Oriente Médio acendeu um alerta no agronegócio brasileiro. O setor, altamente dependente do óleo diesel que abastece suas máquinas e veículos e também de fertilizantes que são derivados de petróleo e gás natural, teme aumento de custos e impacto direto no preço dos alimentos.
O que aconteceu
Conflito no Oriente Médio impulsiona preço do petróleo. Desde a primeira ofensiva conjunta de Estados Unidos e Israel contra o Irã, em 28 de fevereiro, a cotação do barril do Brent, referência internacional do combustível, subiu 26,9% até o fechamento do pregão de ontem, de US$ 72,48 para US$ 91,98. Na máxima desde o ataque inicial, o preço encostou em US$ 120, maior valor desde 2022.
A alta do combustível prejudica diretamente o agronegócio nacional. Os produtores rurais temem a escassez e o encarecimento do diesel, usado em máquinas e caminhões. “Sem o diesel, a fazenda para. O diesel é o que move as máquinas agrícolas e é fundamental para o escoamento da produção”, afirma Paulo Bertolini, presidente da Abramilho (Associação Brasileira dos Produtores de Milho e Sorgo).
O encarecimento atinge a fase final da safra de verão, o principal ciclo agrícola do país. “Quando se pensa na fase atual de colheita, há um uso muito intensivo de maquinário e, portanto, de diesel”, avalia André Diz, professor de economia do Ibmec.
Falta de fertilizantes também amplia temores em meio à guerra. O impacto negativo na produção considera a preocupação com a falta das substâncias essenciais para o crescimento das safras, já que o Oriente Médio fornece um percentual relevante dos chamados fertilizantes nitrogenados, produzidos a partir do processamento do gás natural e do petróleo. Com o fechamento do estreito de Hormuz, os especialistas apontam um efeito ainda mais adverso para a safra do segundo semestre.
“Na dinâmica do agro, enquanto se colhe a soja, os produtores já estão plantando milho e a segunda safra. Quando você vai plantar esse milho, aparecem dois componentes importantes: as máquinas que vão usar esse diesel e o fertilizante utilizado no solo, que também depende do petróleo”, disse André Diz.
Impacto na economia e na inflação
O agronegócio puxou o crescimento da economia brasileira em 2025. O setor cresceu 11,7% no ano passado e garantiu o avanço de 2,3% do PIB (Produto Interno Bruto), mas a previsão para este ano é negativa por causa da crise do petróleo.
O custo elevado da produção vai chegar aos consumidores nos supermercados. O repasse do valor do frete e dos insumos afeta a inflação dos alimentos. “É um reflexo praticamente imediato, porque o mercado acaba precificando esses impactos e transferindo”, afirma o presidente da Abramilho.
A duração do conflito dita o tamanho do prejuízo econômico no Brasil. André Diz sustenta que um barril perto de US$ 100 por muito tempo muda a taxa de juros. “A principal questão é quanto tempo esse conflito vai durar. Se o conflito se resolver em 20 ou 30 dias, o preço do petróleo vai atingir um pico e vai afetar alguns produtos”, completa o economista.
Relatos de falta de combustível
Entidades do Rio Grande do Sul já relatam falta de diesel para as máquinas. A Farsul (Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul) e a Federarroz (Federação das Associações de Arrozeiros) apontam que o preço alto limitou o abastecimento e ameaça a colheita de arroz e soja.
A ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis) investiga problemas no fornecimento. O órgão afirma que monitora diariamente os estoques e as entregas do combustível. “Caso seja necessário, a Agência está preparada para adotar todas as medidas cabíveis a fim de assegurar a continuidade e a normalidade da oferta de diesel no país”, diz em nota.
A Agência não identifica restrições à manutenção das atividades ou à disponibilidade de combustíveis no mercado doméstico, considerando as fontes usuais de suprimento do país.
A Petrobras nega qualquer alteração nas entregas de diesel pelas refinarias. A estatal sustenta que o fluxo de combustíveis ocorre conforme o planejado e segue os compromissos comerciais em vigor.
(Com informações do Uol)