O consumidor brasileiro vai pagar mais caro pelo pão, macarrão e outros produtos de trigo em 2026. O Brasil enfrenta um cenário marcado por custos de produção mais elevados e redução da área plantada e, assim, pode ampliar sua dependência de importações e se tornar o maior importador mundial de trigo na próxima safra.
Segundo a presidente do Sinditrigo-PR (Sindicato da Indústria do Trigo do Paraná) e do Moinho Globo, Paloma Venturelli, as mudanças no ambiente geopolítico desde o início do ano trouxeram reflexos diretos sobre os custos da cadeia.
O encarecimento do petróleo, influenciado pelas tensões geopolíticas, também pressiona os custos logísticos e de insumos. A alta dos fertilizantes é outro fator de preocupação no setor.
De acordo com Venturelli, as cotações do trigo registraram mudanças relevantes nos últimos meses.
As cotações do trigo que a gente estava acostumado no mês de março não existem mais. O cenário é outro hoje”, disse.
Ela aponta aumento generalizado de custos, incluindo embalagens, que subiram mais de 25%, e fretes, impactados pela alta dos combustíveis e por mudanças na tabela da ANTT (Agência Nacional de Transportes Terrestres).
Desde o início do conflito, segundo Venturelli, a indústria passou a pagar cerca de US$ 50 a mais por tonelada de trigo importado e mais de R$ 200 por tonelada no mercado interno, o que representa um impacto próximo de 20%. Apesar da recente valorização do real frente ao dólar, que ajuda a aliviar parte da pressão sobre importações, ela afirma que o mercado ainda precisa absorver os aumentos.
A expectativa do setor é de repasses graduais ao consumidor. Venturelli afirma que os reajustes já começaram há cerca de 40 dias e devem continuar ao longo do ano, com aumentos iniciais em torno de 10%, mas que devem chegar a, no mínimo, 20%.
Redução de área plantada
Mesmo com a alta dos preços, a tendência é de retração na área plantada. Segundo o analista da TF Consultoria Agroeconômica, Luiz Pacheco, produtores em todo o país avaliam reduzir o cultivo devido ao aumento dos custos e à incerteza sobre a rentabilidade.
“Todos os estados do Brasil estão falando em redução de área”, afirmou. Entre os fatores citados estão o encarecimento dos insumos, o aumento do frete e dificuldades no fornecimento de ureia, insumo que passa pelo Estreito de Ormuz e tem registrado alta de preços e restrições de oferta.
No Paraná, principal produtor nacional, a área plantada pode atingir o menor nível em mais de 25 anos, segundo o (Deral) Departamento de Economia Rural.
Pacheco afirma que um dos principais motivos para a redução da área é a baixa remuneração do ciclo 2025/26. “No Rio Grande do Sul, por exemplo, chegou a R$ 1 mil a tonelada. Isso não remunera os custos. Tem gente que planta só porque precisa plantar trigo e não consegue migrar para outras culturas”. Segundo ele, o produtor rural observa os custos de produção subindo, e sem saber se a alta nos preços da commodity irá se manter.
O analista destaca que, diante da incerteza, produtores podem reduzir investimentos, o que pode afetar também a qualidade da produção. Venturelli aponta que a menor aplicação de fertilizantes, como estratégia de contenção de custos, pode impactar o rendimento e a qualidade do trigo.
Estoques baixos e demanda crescente
Entidades como a Abitrigo (Associação Brasileira da Indústria do Trigo) e a Abimapi (Associação Brasileira das Indústrias de Biscoitos, Massas Alimentícias e Pães e Bolos Industrializados) indicam crescimento da demanda por farinha de trigo no país. Ao mesmo tempo, os estoques da safra atual já se esgotaram em estados como Rio Grande do Sul e Paraná, especialmente para trigo de melhor qualidade.
Com a oferta reduzida, os preços já apresentam alta. Segundo Pacheco, os valores chegam a R$ 1.350 por tonelada no Rio Grande do Sul e R$ 1.400 no Paraná.
Para a próxima safra, a estimativa é de preços entre R$ 1.350 e R$ 1.500 por tonelada. “Para a próxima safra o preço deve ser bom e lucrativo, justamente porque vai plantar menos”, disse o analista.
No cenário internacional, projeções de menor produção nos Estados Unidos, devido à baixa umidade em regiões produtoras, e o ambiente geopolítico também contribuem para a valorização da commodity.
Maior dependência de importações
Com a produção interna abaixo da demanda, o Brasil deve ampliar as importações. A estimativa do Sinditrigo-PR é que apenas o Paraná importe cerca de 1,3 milhão de toneladas de trigo em 2026, com a Argentina como principal fornecedora.
Segundo Pacheco, o país pode importar cerca de 8 milhões de toneladas no próximo ano, volume que, se confirmado, colocaria o Brasil como o maior importador mundial de trigo, à frente do Egito.
A dependência do mercado externo ocorre em um contexto de custos logísticos elevados e maior demanda global, o que reduz a previsibilidade do abastecimento. Venturelli ressalta que o intervalo entre as safras brasileira e argentina amplia a necessidade de importações ao longo do ano. “O ano vai ser de muita importação”, afirmou.
Impacto na indústria e no consumidor
De acordo com Pacheco, os principais efeitos da alta dos custos deve ser nas pontas da cadeia, com o produtor rural e o consumidor final. Ele destaca que a indústria atua como intermediária, ajustando preços conforme os custos de aquisição e operação.
O analista aponta que moinhos com menor capital de giro podem enfrentar mais dificuldades para operar em um ambiente de preços elevados, enquanto empresas mais estruturadas tendem a absorver melhor as oscilações.
Quem vai pagar essa conta não é a indústria, é o consumidor”, afirmou.
(Com informações da CNN Brasil)