“No começo, recusei a proposta de plantar dendê porque não conhecia. Mas mudei de ideia quando vi que ia ter apoio”, conta Francisco Jaime da Silva. Há 40 anos instalado em Moju, no nordeste do Pará, o agricultor estava acostumado a plantar milho, arroz, feijão e mandioca, quando recebeu em 2012 uma proposta da Belém Brasil Bioenergia (BBB) para plantar e fornecer os frutos da palma à indústria.
Vencida a desconfiança inicial, Francisco começou dedicando 20 hectares à nova cultura, que hoje já ocupa 32 hectares e lhe garante uma renda elevada para os padrões da produção familiar no país, além de mais capacidade para investir nas lavouras.
Como Francisco, muitos agricultores familiares do nordeste do Pará estão convertendo áreas de pasto e outras culturas, como mandioca e feijão, para a palma (ou dendê, como é conhecida popularmente) por estímulo da indústria local. As empresas apostam no crescimento via agricultura familiar para expandir a oferta local e atender à demanda das indústrias de alimentos, cosméticos e, em menor grau, de biodiesel.
A estratégia é resultado tanto das opções restritas de crédito à cultura como uma aposta em sustentabilidade. A agricultura familiar é hoje o único segmento com linha de crédito que financia o plantio nas condições apropriadas às características da palma, segundo Victor Almeida, presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Óleo de Palma (Abrapalma). Como a palmeira do dendê começa a dar fruto três anos após o plantio, e a produtividade só paga os custos a partir do quinto ano, não é qualquer crédito que atende à necessidade.
A linha disponível hoje para a palma é a Pronaf Bioeconomia, que oferece seis anos de carência e 15 de prazo, e taxa de 3,5% ao ano. Mesmo assim, há limitações. Com teto de R$ 250 mil por beneficiário, o valor financia a implantação de no máximo 10 hectares.
Para as empresas, o investimento em lavouras próprias é custoso, já que demanda alto emprego de capital e retorno no longo prazo, o que provoca descasamento de caixa. Dentre os perfis de fornecedores, o dirigente acredita que a expansão do cultivo na agricultura familiar já cresce a uma taxa maior que entre médios e grandes produtores, embora não existam dados históricos. Segundo a Pesquisa Agrícola Municipal (PAM), do IBGE, a área destinada à colheita de palma no país cresceu 58% em dez anos, e alcançou 222 mil hectares. Já um levantamento da consultoria Agroportal de 2025, contratado pela Abrapalma, identificou 283 mil hectares, 13,8% ocupados pela agricultura familiar.
Entre as maiores empresas do setor é comum oferecer contratos de 25 anos garantindo a compra do cacho do dendê, assistência técnica e apoio na compra de insumos, como mudas e adubos. Os contratos asseguram ao produtor o pagamento de 10% do preço internacional do óleo de palma, mas a depender da oferta e demanda locais, a indústria paga mais pelo cacho. Segundo Almeida, o preço pago hoje está em torno de 12% a 13% da cotação do óleo na bolsa de Roterdã.
A apreciação do óleo de palma na última década também melhorou a remuneração dos produtores locais e incentivou o cultivo. Nos últimos 12 meses, os preços do óleo de palma bruto (CPO) na Malásia subiram 26%. Quando a pandemia começou, os preços dispararam e nunca mais voltaram aos níveis anteriores, apesar de terem tido altos e baixos desde então. Em seis anos, os preços da commodity mais do que dobraram.
“Quando surgiu a chance de negociar com empresa e banco, não pensei duas vezes”
— Benedita Almeida
Em momentos em que os preços globais caíram, algumas empresas buscaram garantir a remuneração de seus fornecedores. Benedita Almeida do Nascimento, produtora de Moju (PA) e uma das referências no cultivo de palma de pequena escala na região, conta que, entre 2015 e 2017, os produtores foram atingidos duplamente: pela queda dos preços e por um ataque de borboletas que comem as folhas, afetando o desenvolvimento da planta.
O preço ficou baixo, mas a empresa chegou a pagar para nós além do que ela vendia no mercado. O gerente se reuniu com a gente e disse que se a empresa não pagasse o preço diferencial, a gente ia desistir”, lembra a produtora, que sempre forneceu para a Agropalma.
O primeiro plantio de palma de Benedita foi em 2002, com 10 hectares via Pronaf. Em 2013, após quitar o primeiro financiamento, plantou mais 10 hectares, e em 2019, mais 49 hectares com recursos próprios. Entre 2023 e 2024, fez novos plantios, e até o fim do ano quer chegar aos 400 hectares. Nesses 24 anos, ela saiu do status de produtora familiar e tornou-se uma produtora média, considerada como a “rainha do dendê”.
Muitas indústrias também oferecem assistência técnica contínua para garantir a oferta do fruto. Quando Maria José dos Santos e família saíram do interior do Maranhão para se instalar em Tailândia, ninguém havia plantado palma antes. Hoje, ela recebe visitas técnicas uma vez por mês da equipe do programa Parceria Agrícola Familiar (PAF) da BBB. “Teve uma vez que teve infestação de borboleta e eu coloquei armadilhas. Mas o técnico disse que tinha que matar uma por vez”, conta.
A BBB tem hoje contratos com agricultores familiares que plantam palma em 14 mil hectares, e estabeleceu um plano para alcançar 24 mil hectares em 2029 – mais da metade de sua área atual.
Segundo Victor Almeida, que também preside o conselho da BBB, a aposta na agricultura familiar é ainda uma forma de garantir conformidade socioambiental, diferenciando-se do óleo oriundo dos grandes produtores como Indonésia e Malásia, onde o cultivo é alvo de denúncias de desmatamento e desrespeito aos direitos trabalhistas.
Para executar o plano, a BBB faz uma análise socioambiental das propriedades, incluindo do Prodes. Segundo Carine de Paula Cunha, coordenadora de parceria familiar, esse é um dos principais gargalos, já que o zoneamento da palma impede a expansão do cultivo em áreas abertas após 2010. Outros desafios, diz, são a falta de regularização fundiária, a aprovação e liberação do crédito ao produtor, e a disputa entre as empresas pelos agricultores da região.
(Com informações do Globo Rural)