O preço do açaí tipo médio registrou um aumento de 83,47% nos últimos cinco anos em Belém, conforme levantamento realizado pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos no Pará (Dieese/PA), enviado com exclusividade à reportagem de O Liberal. Entre junho de 2022 e maio de 2026, o valor médio do litro saltou de R$ 22,38 para R$ 41,06 na capital paraense. No mesmo período, a inflação oficial, medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), acumulou 17,70%, o que significa que o reajuste do açaí ficou 65,77 pontos percentuais acima da inflação registrada no país.
Apenas nos primeiros cinco meses de 2026, o reajuste acumulado do açaí médio foi de 42,47%, enquanto o Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC/IBGE) avançou apenas 3,36%. Essa variação demonstra que o aumento do principal alimento da mesa dos paraenses foi quase 13 vezes superior à inflação oficial no ano corrente. O tipo grosso também acompanhou a disparada e acumulou uma alta de 41,10% de janeiro a maio deste ano.
Segundo o balanço histórico do Dieese/PA, as reduções sazonais de preço observadas no início da safra são insuficientes para anular as fortes altas registradas ao longo de cada ano. Em junho de 2023, o litro médio custava R$ 23,98, passando para R$ 21,10 em junho de 2024 e saltando para R$ 30,25 em junho de 2025, até atingir o patamar atual de R$ 41,06 em maio de 2026.
Segundo o diretor técnico do Dieese-PA, Everson Costa, a inflação é utilizada como parâmetro de comparação porque representa a média da evolução dos preços de produtos e serviços ao longo de um determinado período, considerando oscilações tanto de alta quanto de baixa. Ele explica que esse indicador serve de referência para avaliar o comportamento de preços específicos, como o do açaí, e que a inflação acumulada em 12 meses é usada para reajustar salários, atualizar contratos e medir a perda do poder de compra da população.
“Quando a gente compara com a inflação, a gente busca mostrar que a valorização do preço do açaí, ao longo de todo esse período, fez com que o fruto fosse valorizado muito mais do que outros itens considerados na média calculada pela nossa inflação. O INPC é o índice que nós utilizamos para ajustar os salários dos trabalhadores. Nessa sequência, quanto maior for a distância entre o aumento do preço de um bem, produto ou serviço e a inflação, mais difícil será para esse trabalhador acompanhar esse preço com o seu poder de compra. E estamos falando de um açaí que, ao longo do período, teve aumentos e subiu justamente por conta dessa valorização”, analisa.
Alta da energia elétrica e concorrência com indústrias pressionam batedores artesanais
Os batedores artesanais da capital afirmam que repassar os aumentos de preço da matéria-prima para o consumidor final tornou-se uma medida inevitável para a sobrevivência do negócio. “A maioria dos estabelecimentos fala sobre o aumento do repasse ao consumidor. A gente não consegue absorver tanto”, afirma Jhoy Gerald Souza, diretor de comunicação da Associação da Cadeia Produtiva do Açaí de Belém (ACPAB). O representante explica que a lata do fruto chega a custar R$ 200 no inverno, o que inviabiliza a venda do litro por menos de R$ 20.
Além do preço do fruto, as despesas fixas com energia elétrica e água sobrecarregam o funcionamento diário dos pontos de venda tradicionais na cidade.
“Atualmente, o custo que mais pressiona é a energia. Hoje, para manter um ponto comercial organizado, com ar-condicionado e fazendo o branqueamento, há uma elevação na conta de energia, então tem um custo para poder manter o estabelecimento aberto funcionando”, destaca Jhoy Gerald Souza.
Outro fator de pressão é a competição direta com as grandes indústrias de polpa, que compram o insumo diretamente nas áreas de produção para fins de exportação. “As fábricas passaram a tirar o açaí da feira. Elas compram lá no mato e o açaí demora a chegar no mercado interno”, complementa o diretor da ACPAB, ressaltando que o avanço das cooperativas industriais reduz severamente o volume de frutos disponíveis nas feiras urbanas.
Fatores climáticos e crescimento da demanda internacional reduzem oferta local
Mudanças climáticas severas e a expansão do mercado consumidor fora do Pará também explicam o encarecimento estrutural do alimento. “Ano passado, devido ao El Niño, a gente sentiu a ação climática nas produções do açaí. O açaí que era de manejo conseguiu chegar, mas o açaí que é nativo não chegou na região”, relembra Jhoy Gerald Souza, detalhando que a escassez elevou o preço da lata do fruto vindo do Marajó para R$ 100 mesmo no período de colheita.
Pesquisadores confirmam que o crescimento da demanda global desequilibra o mercado interno, embora traga benefícios econômicos para as comunidades extrativistas.
“Atualmente, o custo que mais pressiona é a energia. Hoje, para manter um ponto comercial organizado, com ar-condicionado e fazendo o branqueamento, há uma elevação na conta de energia, então tem um custo para poder manter o estabelecimento aberto funcionando”, destaca Jhoy Gerald Souza.
Outro fator de pressão é a competição direta com as grandes indústrias de polpa, que compram o insumo diretamente nas áreas de produção para fins de exportação. “As fábricas passaram a tirar o açaí da feira. Elas compram lá no mato e o açaí demora a chegar no mercado interno”, complementa o diretor da ACPAB, ressaltando que o avanço das cooperativas industriais reduz severamente o volume de frutos disponíveis nas feiras urbanas.
Fatores climáticos e crescimento da demanda internacional reduzem oferta local
Mudanças climáticas severas e a expansão do mercado consumidor fora do Pará também explicam o encarecimento estrutural do alimento. “Ano passado, devido ao El Niño, a gente sentiu a ação climática nas produções do açaí. O açaí que era de manejo conseguiu chegar, mas o açaí que é nativo não chegou na região”, relembra Jhoy Gerald Souza, detalhando que a escassez elevou o preço da lata do fruto vindo do Marajó para R$ 100 mesmo no período de colheita.
Famílias de baixa renda alteram hábitos alimentares e reduzem consumo diário do fruto
O encarecimento contínuo forçou uma mudança profunda no comportamento de consumo das famílias que utilizam o fruto como base da alimentação diária.
A mudança dos consumidores foi muito grande. Eles passaram a reduzir. Quem tomava todos os dias, passou a tomar dois dias na semana”, relata Jhoy Gerald Souza.
De acordo com ele, o açaí médio tornou-se um artigo de luxo, impulsionando a procura pelo tipo popular nas periferias.
Para mitigar o impacto financeiro, os moradores das áreas urbanas recorrem a alternativas domésticas de armazenamento e substituição do produto. “Os consumidores das áreas urbanas de menor renda passaram a ter maior dificuldade de aquisição e consumo desse componente básico da alimentação, especialmente no período de entressafra. No entanto, essas pessoas, de forma resiliente, têm desenvolvido maneiras de se adaptar e contornar, pelo menos parcialmente, o problema”, analisa o pesquisador Jair Carvalho. Entre as alternativas, o agrônomo cita a compra de açaí mais fino, o congelamento na safra e o plantio doméstico nos quintais.
Pesquisadores confirmam que o crescimento da demanda global desequilibra o mercado interno, embora traga benefícios econômicos para as comunidades extrativistas.
(Com informações de O Liberal)